Éramos cinco
espíritos deslizando sobre o asfalto em direção à capital do estado num desses “táxis lotação”. A moça uniformizada à direita no banco traseiro, o
garoto com a mochila azul no colo, o senhor dos óculos de grau, e nos bancos da
frente o motorista e eu.
Quando
deixamos Estância, todos estavam calados, no ritual cabalístico que todo ser
humano faz em qualquer lugar onde todos sejam estranhos, apenas a moça alta e
magra tinha me dirigido à palavra:
- Qual é o
lado da sombra? Perguntou ela com um sorriso, generoso para um desconhecido,
enquanto se acomodava no banco de trás.
Mas, após a
saída, todos se trancaram dentro dos seus egos. Espíritos! Espíritos moribundos
e tímidos olhavam uns para os outros tomando o maior cuidado para que os outros
não percebessem que os examinávamos.
Foi nesse
clima mórbido, desconfiado e tímido que o motorista, talvez o menos acanhado ou
o único que se sentia na obrigação de deixar-nos à vontade, rompeu o silêncio
numa função tão fática quanto necessária. E ele escolheu bem o tema da conversa
que queria provocar: Política. Iniciou então fazendo uma breve explanação da
situação política do nosso município, e depois como um bom palpiteiro e taxista
que se preze, não deixou de dar sua opinião, o que provocou a discordância do
homem de óculos. Eu me resguardava ao máximo, minha voz, por mais que eu
quisesse opinar em algum ponto, teimava em não sair. Existia um nó na garganta
que me impedia de entrar naquela conversa. Foi então que o garoto, também de lá
do seu lugar no banco traseiro adentrou a conversa com comentários que
refletiam um pensamento socialista. Apenas eu e a bela garota com uniforme de
secretária, não tínhamos deixado nossas marcas no debate que ia se edificando.
Lutei contra o
fantasma que prendia minha voz, mas quando consegui falar algo, saiu de uma
maneira tão fraca e tão morta, que senti vergonha de mostrar aquela coisinha
murcha em meio às outras imponentes vozes másculas que ricocheteavam dentro do
carro. Mesmo assim falei, falei e dali em diante fui crescendo em alma, voz e
espírito. E depois de uns cinco minutos já proferia frases recheadas de
sarcasmo ao me referir à opção partidária do motorista conversador.
Estávamos
agora de certo modo apresentados e conhecidos através do pensamento político de
cada um. Falávamos muito, riamos e atacávamos polidamente dependendo do grau de
discordância das idéias de cada um. Apenas ela não falava, não sei, mas a falta
das suas ondas sonoras me incomodava, não conseguia fitá-la, pois estava bem
atrás de mim, e contorcesse todo para apenas olhá-la seria, no mínimo, algo
desagradável, pensei em pedir que se pronunciasse, mas, se não queria falar
devia ter seus motivos. Talvez estivesse cansada, ou algo assim... “Não,
cansaço não deixa as pessoas cemiteriamente antipáticas”, pensei, “mas ela
falou comigo tão espontaneamente quando saímos... Ah! Deve ser o assunto,
política não é um dos mais discutidos no repertório feminino”.
Continuamos
nossa conversa, e enquanto o automóvel jogava velozmente o asfalto para trás,
nossas palavras transbordavam pelos vidros semiabertos. Todos aparentavam ter
ciência da doença que corrói a estrutura governamental do país, a menos pelos
comentários do motorista, que defendiam a forma assistencialista de alguns dos
nossos políticos de conseguir votos, tínhamos um debate que coerentemente
convergia para uma análise crítica do tipo do político brasileiro.
Ao chegarmos a
Aracaju, entramos num trânsito livre de engarrafamentos, passeávamos olhando os
prédios e praças admirando a estrutura daquela cidade grande com o ar
convidativo interiorano, simplesmente rica e confortável.
Eis então que
em uma avenida onde um insosso muro cinzento deitava preguiçoso à nossa
esquerda, o semáforo nos deteve. (...)
Foto. Fonte:http://obomsamaritano.com.br/de-menino-de-rua-a-microempresario/
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