domingo, 12 de julho de 2015

O malabarista - Parte II

Eis então que em uma avenida onde um insosso muro cinzento deitava preguiçoso à nossa esquerda, o semáforo nos deteve. Era uma hora especial, a luz vermelha pediu ao respeitável público a atenção para o espetáculo que estava começando. Em poucos segundos o artista apareceu entre o sinal e as filas de veículos. Era um menino magrinho, negro, de olhos fundos e pés descalços. Posicionou seus malabares, acho que esse é o nome daqueles três pedaços de cabos de vassoura enfeitados. Sem mais nenhuma apresentação ele começou seu número: girava um dos bastões de forma impressionante com a ajuda dos outros dois, um em cada mão, eram magistralmente perfeitos os rodopios que aquilo dava no ar e era apanhado pelo menino sem que esse deixasse os giros cessarem. Era realmente impressionante a precisão dos seus movimentos, um espetáculo digno de um circo famoso, levando em conta que era um molequinho de uns 12 anos que o apresentava.
Parei um momento e esperei algum comentário dos especialistas políticos que me acompanhavam, pois ali estava o fruto das mazelas políticas que tanto criticávamos havia poucos minutos... Nada, não ouvi uma palavra. Olhei meus companheiros de viagem, pareciam sérios olhando para frente, nem um olhar de repressão, inconformismo... Olhavam qualquer coisa, menos para o garotinho e seu espetáculo circense. Foquei lá fora os carros que estavam ao nosso lado, e todos refletiam o comportamento dos meus colegas de táxi. Estavam zumbificados, tomados pela desesperada tentativa de não serem apanhados pelo espírito de compaixão. Percebi então que aquele silêncio era medo, que aquela parada brusca nas línguas tagarelas de a pouco, era uma guerra interior que cada um travava contra o que o ser humano tem de mais bonito e útil: COMPAIXÃO.
Fitei o menino e imaginei o que seria ter que enfrentar uma platéia tão desinteressada, que deve ser frustrante ter que treinar tanto tempo, e se deparar com uma situação em que é duvidosa a possibilidade de ser remunerado em uma apresentação, de não receber nenhum aplauso, nenhuma moeda que o levasse satisfeito para casa. Por um momento tive a impressão de ter entendido o silêncio da garota, sua sensibilidade feminina talvez a tivesse feito rir de nós durante toda a viagem sabendo que tudo aquilo era teoria barata, que na prática todos somos seres inteiramente egoístas, incapazes de perceber no outro nossas necessidades mais vitais.
Por fim o show acabou. Em um último rodopio o bastão foi agarrado, e o malabarista preparou-se para recolher qualquer esmola que estivéssemos dispostos a dar pelo seu belo espetáculo. Foi então que se revelou a face mais obscura do homem: OMISSÃO. Começou a andar por entre os veículos que roncavam baixinho, mas, nenhum vidro foi abaixado, apenas o menino inutilmente parecia ter vida em meio aos motorizados e congelados corações. Era um fantasma, um espectro ignorado pelos olhos frios dos automóveis, e pelos cadavéricos e podres humanos que prendiam suas almas dentro de corpos estáticos naquele momento. Apenas ele era um espírito livre pairando por entre os carros, olhando lentamente para as janelas fechadas.
Constatando que não seria dessa vez que iria receber algo, retirou-se antes que o sinal abrisse, e foi sentar junto ao muro. Sentou-se, colocou os instrumentos de trabalho ao seu lado, e ficou ali... O sinal abriu. Os automóveis rosnaram e começaram a partir, ele os olhava com uma expressão pacientemente irritante, eu, que me sentia tão incapaz diante da cena que acabara de presenciar, não compreendia sua face. Eu não entendia como ele podia ser tão profissional. Sim, profissionalmente um fantasminha.

Ali, junto ao triste muro ele ficou: esquecido, transparente, invisível... Esperando a próxima leva de “vivos” para assombrar com a realidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique à vontade para comentar.