Eis então que
em uma avenida onde um insosso muro cinzento deitava preguiçoso à nossa
esquerda, o semáforo nos deteve. Era uma hora especial, a luz vermelha pediu ao
respeitável público a atenção para o espetáculo que estava começando. Em poucos
segundos o artista apareceu entre o sinal e as filas de veículos. Era um menino
magrinho, negro, de olhos fundos e pés descalços. Posicionou seus malabares,
acho que esse é o nome daqueles três pedaços de cabos de vassoura enfeitados.
Sem mais nenhuma apresentação ele começou seu número: girava um dos bastões de
forma impressionante com a ajuda dos outros dois, um em cada mão, eram
magistralmente perfeitos os rodopios que aquilo dava no ar e era apanhado pelo
menino sem que esse deixasse os giros cessarem. Era realmente impressionante a
precisão dos seus movimentos, um espetáculo digno de um circo famoso, levando
em conta que era um molequinho de uns 12 anos que o apresentava.
Parei um
momento e esperei algum comentário dos especialistas políticos que me
acompanhavam, pois ali estava o fruto das mazelas políticas que tanto
criticávamos havia poucos minutos... Nada, não ouvi uma palavra. Olhei meus
companheiros de viagem, pareciam sérios olhando para frente, nem um olhar de
repressão, inconformismo... Olhavam qualquer coisa, menos para o garotinho e
seu espetáculo circense. Foquei lá fora os carros que estavam ao nosso lado, e
todos refletiam o comportamento dos meus colegas de táxi. Estavam zumbificados,
tomados pela desesperada tentativa de não serem apanhados pelo espírito de
compaixão. Percebi então que aquele silêncio era medo, que aquela parada brusca
nas línguas tagarelas de a pouco, era uma guerra interior que cada um travava
contra o que o ser humano tem de mais bonito e útil: COMPAIXÃO.
Fitei o menino
e imaginei o que seria ter que enfrentar uma platéia tão desinteressada, que
deve ser frustrante ter que treinar tanto tempo, e se deparar com uma situação
em que é duvidosa a possibilidade de ser remunerado em uma apresentação, de não
receber nenhum aplauso, nenhuma moeda que o levasse satisfeito para casa. Por
um momento tive a impressão de ter entendido o silêncio da garota, sua
sensibilidade feminina talvez a tivesse feito rir de nós durante toda a viagem
sabendo que tudo aquilo era teoria barata, que na prática todos somos seres
inteiramente egoístas, incapazes de perceber no outro nossas necessidades mais
vitais.
Por fim o show
acabou. Em um último rodopio o bastão foi agarrado, e o malabarista preparou-se
para recolher qualquer esmola que estivéssemos dispostos a dar pelo seu belo
espetáculo. Foi então que se revelou a face mais obscura do homem: OMISSÃO.
Começou a andar por entre os veículos que roncavam baixinho, mas, nenhum vidro
foi abaixado, apenas o menino inutilmente parecia ter vida em meio aos
motorizados e congelados corações. Era um fantasma, um espectro ignorado pelos
olhos frios dos automóveis, e pelos cadavéricos e podres humanos que prendiam
suas almas dentro de corpos estáticos naquele momento. Apenas ele era um
espírito livre pairando por entre os carros, olhando lentamente para as janelas
fechadas.
Constatando
que não seria dessa vez que iria receber algo, retirou-se antes que o sinal
abrisse, e foi sentar junto ao muro. Sentou-se, colocou os instrumentos de
trabalho ao seu lado, e ficou ali... O sinal abriu. Os automóveis rosnaram e
começaram a partir, ele os olhava com uma expressão pacientemente irritante,
eu, que me sentia tão incapaz diante da cena que acabara de presenciar, não compreendia
sua face. Eu não entendia como ele podia ser tão profissional. Sim,
profissionalmente um fantasminha.
Ali, junto ao
triste muro ele ficou: esquecido, transparente, invisível... Esperando a
próxima leva de “vivos” para assombrar com a realidade.

